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A Ilha de Febe

A MÚSICA”, diz Jean-François Marmontel nos “Contos Morais”, é o único talento que apreciamos a sós; todos os demais requerem testemunhas.” Eis que ele confunde o prazer oriundo das doces melodias com a capacidade de se as criar. É só em harmonia com outros talentos que a música produz efeitos que podem ser inteiramente apreciados na completa solidão. A idéia que o narrador certamente quis passar é a de que a mais alta classe de música é mais bem apreciada quando estamos totalmente sozinhos. Mas há outro prazer que tem ainda mais a ver com o isolamento. Refiro-me à felicidade de se contemplar um cenário natural. Para mim a presença de vida de qualquer outra forma que não a daqueles seres verdes que crescem silentes sobre o solo é um borrão na pintura da natureza, está em desacato com o “gênio da cena” . Adoro, na verdade, admirar os vales escuros, as rochas acinzentadas, as águas que silenciosamente sorriem, as florestas que sussurram em inquietantes cochilos e as vigilantes e orgulhosas montanhas que tudo observam. Adoro admirar tudo isso: os membros colossais de uma vastidão imensa, animada e senciente —uma vastidão cuja forma, a da esfera, é a mais perfeita e tudo abrange. A vastidão que tem na lua a sua criada submissa; no sol, o soberano mediador; tem a vida eterna; tem em Deus o pensamento; no conhecimento, o seu prazer; tem seu destino solto na imensidade; vastidão cujo reconhecimento de nós mesmos está relacionado com o reconhecimento que tenhamos dos seres microscópicos que estão infestados no cérebro humano. Seres esses que consideramos como puramente inanimados, da mesma forma que aqueles devem nos considerar.
Assim somos nós, insanos errantes, navegando pelo amor próprio, acreditando que o homem, nos seus destinos temporais ou futuros, possa ser mais do que apenas um instante no universo desse torrão de terra que ele, o homem, que ele cultua e ao mesmo tempo menospreza, e ao qual nega uma alma por nenhuma outra razão que a de não o observar em movimento.

Tais pensamentos têm dado às minhas reflexões, entre montanhas e florestas, à beira de rios e do oceano, uma pincelada do que o cotidiano não deixaria de chamar de capricho. Meus passeios por tais cenários têm sido freqüentes, longos e amiúde solitários; e o interesse das minhas andanças através de tantos vales escuros e densos ou das minhas incursões no Céu refletido das espelhentas águas de certo lago foi intensamente aprofundado pela idéia de que meus movimentos eram solitários.
E foi numa dessas minhas incursões, por uma remota região de montanhas encadeadas noutras montanhas regadas por tristes rios e melancólicos e pequeninos lagos, qu’encontrei por acaso um certo riacho plantado numa ilha. Lá cheguei no mês da queda das folhas e larguei-me na relva, sob os braços imensos de uma cheirosa e desconhecida árvore onde poderia tirar um cochilo ao contemplar o cenário.

Por todos os lados, exceto no oeste, onde o sol logo se poria, emergiam as verdejantes paredes da floresta. O riozinho que fazia curvas fechadas, e assim logo se perdia de vista, parecia não ter saída da sua cadeia florestal; muito pelo contrário, aparentemente era absorvido pelas folhagens de um verde profundo das árvores a leste. Já do lado contrário (pelo menos era assim que me parecia, eu esticado no chão, olhando para cima), derramava-se silenciosa e continuamente adentro do vale uma cascata de um rico dourado carmim a partir das nascentes celestes do pôr-do-sol.

A meio caminho da minha breve vista percorrida pelos meus olhos deslumbrados, uma pequena ilha circular, profusamente esverdeada repousava no seio do leito.
Minha posição possibilitava incluir numa só olhada tanto a extremidade leste quanto oeste da ilhota; e percebi uma diferença característica dos seus aspectos. A porção ocidental era um harém radiante de belas esculturas de jardinagem. Ela resplandecia num rubor róseo sob o olhar pendente do sol, e abria um lindo sorriso de flores. A relva era baixa e esponjosa. As árvores eram hílares, eretas e davam uma sensação de elasticidade. Parecia haver densas pinceladas de alegria e jovialidade. E embora não houvesse uma brisa naquele ambiente o adejar d‘inúmeras borboletas dava um ar de movimento.

O outro, o lado oriental da ilha, estava coberto por uma imensa sombra. Um ambiente sombreado melancólico mas belo e tranqüilo permeava todas as coisas. As árvores tinham uma coloração escura e uma forma pesarosa ---entrelaçando-se em formatos tristes, solenes e espectrais, que transmitiam sensações de um pesar mortal. A grama tinha o matiz lutuoso do cipreste, e as pontas das suas lâminas pendiam em desânimo e, aqui e acolá, havia montes pequenos mas repugnantes tinham o aspecto de covas embora não as fosse. A sombra das árvores caía pesadamente sobre a água e parecia mergulhar ali, impregnando-a de sua escuridão. Tive a impressão que cada sombra, ao pôr-se o sol, separava-se taciturnamente do tronco que lhe dera origem e assim era absorvida pela ribeira; enquanto outras sombras eram lançadas das árvores, tomando o lugar das suas antecedentes dessa maneira sepultadas.
Essa idéia logo tomou corpo na minha imaginação e perdi-me em devaneios: “Se exist’ilha encantada”, ponderei, “esta é uma delas. Esta é a pousada das raras e meigas fadas que ainda sobreviveram. São delas essas covas verdes? Quando morrem será que partem lenta e melancolicamente; entregando a Deus pouco a pouco a sua existência, que nem essas árvores que se rendem sombra após sombra, deixando a sua substância esvair-se até a dissolução? O que é essa árvore definhadora em relação à água que embebe a sua sombra, ficando assim cada vez mais negra? Será que a vida da fada não é assim em relação à morte que a engolfa?”

Enquanto sobre isso meditava, com os olhos quase fechados, quando o sol descia rapidamente para aí repousar, e lascas brancas do tronco do plátano como flocos de neve caíam da crista da alta árvore e deixavam a água malhada, um breve pensamento poderia se transformar no que me aprouvesse.

Foi quando me pareceu que da luz da porção ocidental da ilha à escuridão da área oposta lentamente se movesse uma daquelas fadas sobre as quais eu ponderara. Erguida ela flutuava toda nua com’uma ninfa nascida do orvalho. Sob a influência dos prolongados raios de sol, o seu ar parecia indicativo de alegria, mas a melancolia dava pesadas pinceladas quando fluía através das sombras. Lentamente deslizava em torno de toda a ilhota e entrava de novo na região da luz. “A volta que ela completara”, continuava eu a ponderar, “é o ciclo do curto ano da sua vida”. Flutuara pelo seu inverno e pelo verão. Está um ano mais perto da morte: pois não deixei de perceber que quando entrou na escuridão, um pedaço de sombra caiu do seu corpo e foi engolido pela água negra, cuja negritude ficou ainda mais escura.

E novamente apareceu a sua imagem, mas no seu semblante havia um ar de maior cuidado e incerteza e menos alegria. Flutuou ela novamente da luz à escuridão; e mais uma lasca de sombra caiu do seu corpo dentro do rio, que alargava, e aumentava, e alagava o terreno. Eu ficava cada vez mais distante dela. Já via apenas o seu vulto. Até que um dia d’escuridão não pude a ver, porque a água, como as ondas no mar, era mais alta que a posição donde eu olhava.
 

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